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Os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores
taxas de participação em actividades culturais, segundo o relatório do
Eurobarómetro. São números que “não nos ficam bem”, diz o secretário de
Estado da Cultura. Falta de investimento, fraca aposta na educação e
baixo poder de compra explicam parte destes resultados dizem diversos
especialistas e responsáveis.
Vamos menos ao cinema, quase não vamos a bibliotecas públicas nem
visitamos museus. A espectáculos de teatro, dança ou ópera vamos muito
pouco; só a concertos, de vez em quando. Não temos grande interesse em
ler um livro, nem costumamos visitar monumentos. Mas vemos e ouvimos
muita televisão e rádio. O retrato não nos deixa ficar bem mas é assim
mesmo que, em traços largos, saímos representados no inquérito do
Eurobarómetro sobre a participação em actividades culturais na União
Europeia. Nele, Portugal surge ao fundo da tabela, ao lado de países
como a Roménia ou a Bulgária. O que significa que os portugueses - tal
como os romenos ou os búlgaros - quase não se envolveram no último ano
em actividades culturais. A crise económica explica parte dos números
mas diz-nos quem conhece o meio que o problema está muito para além
disso. Falta estimular o ensino cultural nas escolas. Falta os decisores
políticos, e a sociedade em geral, olharem para a cultura como um bem
essencial. E falta um maior investimento.
Estas são as principais
conclusões que se tiram depois de se ouvirem vários nomes reconhecidos
da área. Há quem se surpreenda com os números, quem já estivesse à
espera destes dados por estarem em linha com a tendência dos últimos
anos e quem questione a forma como o inquérito da Comissão Europeia foi
realizado. Mas há um adjectivo que todos repetem: “preocupante”.
Sermos
tão pouco activos culturalmente é preocupante e é preciso perceber o
que está a acontecer com a Cultura em Portugal. O que implica também
questionar o estado da Educação e do sistema de ensino, dizem. Afinal,
porque é que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com
menores taxas de participação em actividades culturais? Porque é que
Portugal, por exemplo, é o país onde há maior falta de interesse pela
leitura? E porque é que só 6% dos inquiridos, em Portugal, tem uma
actividade cultural frequente? A média europeia não é particularmente
alta mas as diferenças são grandes, como é o caso da Suécia (43%), da
Dinamarca (36%) e dos Países Baixos (34%), onde os cidadãos descrevem a
sua taxa de participação como elevada ou muito elevada. Na vizinha
Espanha esta taxa é de 19%. Qual é então o problema dos portugueses?
“É
uma questão de educação”, diz ao PÚBLICO Paulo Cunha e Silva,
programador cultural e novo vereador da Cultura da Câmara do Porto, que
acredita que em Portugal “não se cultiva a Cultura”. “'De pequenino se
torce o pepino.' Este ditado popular explica esta situação com eficácia,
é na infância que se devem começar a criar hábitos culturais e isso não
acontece”, defende Cunha e Silva, que deste Eurobarómetro se
surpreendeu mais com a fraca adesão às salas de cinema.
Os dados
do inquérito revelam que 71% dos cidadãos portugueses não foram uma
única vez ao cinema nos últimos 12 meses – uma diferença de quatro
pontos percentuais quando comparado com os dados de 2007 (ano do último
Eurobarómetro sobre a participação em actividades culturais). Segundo os
últimos resultados divulgados pelo Instituto do Cinema e Audiovisual
(ICA), de Janeiro até Outubro registaram-se menos 1,2 milhões de
espectadores nas salas de cinema portuguesas, o que representa uma
quebra de 10,6% em relação ao mesmo período de 2012. A queda já vem do
ano passado mas em 2013 tem vindo a acentuar-se.
“A não frequência
das salas de cinema com esta dimensão é preocupante e é um indicador
muito grave da crise social que estamos a atravessar, é que ir ao cinema
não é só ver filmes de autor”, diz o vereador da Câmara do Porto, que
vê no cinema uma das formas mais fáceis e populares de participar na
Cultura. “Na sua dimensão de diversão e animação, o cinema poderia até
funcionar como um escape para alguma tristeza ou depressão e por isso a
não frequência das salas traduz uma expressão muito profunda da crise”,
continua Cunha e Silva, considerando que é preciso parar para reflectir
de que forma “este momento de patologia social que estamos a atravessar
se está a reflectir nos hábitos das pessoas”.
Números que chocamPara
a professora catedrática da Faculdade de Letras do Porto e antiga
ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, é uma questão de escolha a
que a crise económica e social obriga. “Temos uma crise geral no
consumo, que provoca, evidentemente, uma quebra no consumo cultural, até
porque é neste que se corta habitualmente em primeiro lugar”, diz Pires
de Lima, explicando que “entre gastar dez euros no supermercado ou na
livraria, o cidadão comum não escolhe gastar cinco euros num lado e
cinco euros noutro, gasta tudo no supermercado”. O mesmo exemplo é dado
pelo escritor Vasco Graça Moura, que diz haver uma “opção óbvia” quando
se trata de escolher entre “alimentar um filho ou ir a um concerto”. “A
crise financeira obriga a prioridades rigorosas”, diz o presidente do
Centro Cultural de Belém (CCB), não escondendo, no entanto, que, até ver
os resultados do Eurobarómetro, pensava que “estávamos muito melhor”.
“De algum modo, estes números chocam-me”, continua Graça Moura, para
quem o problema da queda da leitura “está a tornar-se crónico em
Portugal”. "Temos de dar mais atenção ao Plano Nacional de Leitura. É
importante e pode ser uma ajuda."
Segundo os números do inquérito,
apenas 40% dos portugueses leram um livro no ano passado, uma taxa
significativamente mais baixa do que a média europeia, que é de 68%. Se
olharmos para os países nórdicos, a diferença então é esmagadora: na
Suécia 90% dos cidadãos leram um livro no ano passado e na Dinamarca a
taxa é de 82%. De resto, a actividade cultural mais comum na União
Europeia, e em Portugal, é assistir/ouvir programas na televisão/rádio
(72% pelo menos uma vez nos últimos 12 meses – em Portugal 61%).
No
que respeita à leitura de um livro, o relatório diz que os resultados
são “fortemente” influenciados pelo nível de escolaridade, assim como,
por exemplo, a idade se reflectiu como um factor determinante naqueles
que vêem mais televisão ou ouvem rádio.
“A ideia com que fico
depois de ver estes números é a de que ainda há muito a fazer, mas deixa
algum optimismo perceber que são os mais velhos que estão mais tempo
ligados à televisão e à rádio”, diz Fernando Pinto do Amaral, comissário
do Plano Nacional de Leitura, explicando que “os mais novos são mais
diversificados e dividem o tempo entre a leitura, o computador, o
cinema”. “Ainda há alguma razão para pensar que nos mais novos a leitura
ainda existe, enquanto nos mais velhos é mais complicado conseguir
mudar hábitos”, explica. “As pessoas estão muitas vezes em casa, com
poucos recursos financeiros, e a televisão é um meio muito fácil e
directo que entra pela casa dentro”, continua Pinto do Amaral, para quem
o cerne da questão é o “nível geral de educação do país e do interesse
pela Cultura”. Ou, como diz Vasco Graça Moura: “Em Portugal há uma certa
apatia por valores culturais”.
A deputada socialista e antiga
ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, responsabiliza o discurso
político actual que remete para segundo plano as actividades culturais.
“A falta de importância que é dada à Cultura hoje é terrível. O discurso
político que passa para os cidadãos é o de que não nos podemos
preocupar com a Cultura quando há gente a passar fome, e esta é a
mensagem que todos os dias se transmite para a opinião pública”, diz
Canavilhas, que não tem dúvidas de que um “cidadão vulgar facilmente
reproduz este discurso, quando há uns anos era do senso comum que a
Cultura era importante para o quotidiano dos portugueses”.
“É
preciso não deixar esmorecer o esforço que foi feito nestas últimas três
décadas e que conquistou muitos degraus nos hábitos de consumo
cultural, é que o que leva três décadas a ser construído, leva dois ou
três anos a ser destruído”, alerta a deputada socialista, que vê na
Educação a “chave para a mudança”. “Os indicadores da Cultura estão
sempre ligados aos indicadores da Educação. Os países onde os hábitos
culturais são mais consistentes são aqueles onde os níveis de Educação
são mais elevados”, continua Canavilhas, explicando que investir na
Educação é investir na Cultura. No entanto, a antiga ministra da Cultura
do Governo de José Sócrates lamenta que além do desinvestimento que a
Cultura enfrenta, também a educação esteja “num retrocesso sem
precedentes”.
Isabel Pires de Lima dá o exemplo, recorrendo aos
resultados deste inquérito, da frequência de bibliotecas públicas. Em
Portugal, apenas 15% dos cidadãos visitaram uma biblioteca no último
ano, registando-se uma quebra de nove pontos percentuais. Na Europa, a
média é de 31%, também se verificando uma queda comparativamente com
2007, neste caso de quatro pontos percentuais. “É gravíssimo que haja
uma quebra de nove pontos percentuais, tendo em conta o investimento
bárbaro que se fez na rede de bibliotecas públicas”, aponta Pires de
Lima, destacando que “no momento em que o país está quase coberto de
equipamentos culturais, não seria de esperar uma quebra tão acentuada”.
“Quando se investe barbaramente na Educação e não se percebe que
investir um bocado mais em Cultura potenciaria imenso esse investimento
em Educação, acontecem coisas como esta”, diz.
Para o presidente
do Centro Nacional da Cultura, Guilherme d’Oliveira Martins, não há
outra forma de conseguir reverter estes números que não seja a aposta no
sistema de ensino. “É preciso que os pedagogos compreendam, e muitas
vezes não compreendem bem, que a Educação artística está no princípio e
não fim”, diz Oliveira Martins, defendendo que “a Cultura não é uma flor
de botoeira, é algo que está no centro do desenvolvimento”.
Ao
PÚBLICO, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier,
reconhece que “estes números não nos ficam bem” e defende a necessidade
de se reforçarem as políticas educativas com as políticas culturais.
“Temos de ter em conta estes dados para reforçar a minha convicção de
que a dinâmica de colaboração entre a área da Cultura e a área da
Educação, desde o pré-escolar até ao ensino secundário, é absolutamente
essencial”, diz Barreto Xavier.
No Parlamento, a 7 de Novembro,
Barreto Xavier apresentou a Plataforma Educação-Cultura que pretende,
precisamente, ser o eixo de desenvolvimento de políticas estruturais
para as duas áreas. Será da responsabilidade desta Plataforma, por
exemplo, o Plano Nacional de Cinema, que pretende promover a literacia
para o cinema nas escolas, impulsionando a criação de novos públicos.
Apesar do atraso na sua implementação, não estando ainda a funcionar em
pleno, este foi um dos exemplos enumerados ao PÚBLICO pelo Ministério da
Educação e Ciência (MEC), que garantiu que “vai continuar a reforçar, a
incentivar e a apoiar programas de carácter cultural e sobretudo a
valorizar os conteúdos de temática cultural nos programas, metas e
orientações curriculares, manuais escolares e outros recursos
didáctico-pedagógicos”. Continuar-se-á também “a sensibilizar todos os
agentes educativos para a importância da presença da Cultura, nas suas
diversas formas”, acrescenta a resposta do ministério, onde se lê que
os baixos índices de participação cultural se devem à “falta de
escolarização e literacia das gerações seniores, que não foram
incentivadas nem educadas para isso”.
“A evolução do sistema
educativo português, dos índices de escolarização e de analfabetismo nos
últimos 30 anos permitem compreender os resultados”, lê-se ainda na
resposta, por e
mail, do gabinete de comunicação do MEC, que
acredita que nos próximos anos, “com base no desenvolvimento dos
currículos em vigor no sistema educativo, poderemos vir a testemunhar
uma inversão desta tendência”.
Cultura invisível
No
entanto, o sociólogo Claudino Ferreira alerta que uma maior introdução
das artes ao ensino geral “não exige só que se ponham mais conteúdos”.
“É preciso que se pense como é que a relação com as artes nas escolas
pode ser motivadora para os estudantes se interessarem”, diz o professor
auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e
investigador do Centro de Estudos Sociais, defendendo também uma maior
pró-actividade das estruturas culturais e artísticas. “Não há só muito a
fazer por parte das escolas e dos professores, é preciso que também as
instituições e os artistas apresentem propostas concretas para
contribuir para os estudantes”, continua o sociólogo, admitindo, porém,
que os tempos são de dificuldade para as estruturas. “A situação dos
últimos anos é dramática e, por isso, quando olho para a frente vejo uma
situação muito difícil para a Cultura”, explica Claudino Ferreira,
lembrando a constante reformulação de prioridades a que as instituições
culturais e os artistas têm vindo a ser obrigados. “E assim vão perdendo
alguma capacidade de intervenção pública e desse ponto de vista os
próximos anos não serão muito produtivos, não consigo ver uma
recuperação do interesse e do voluntarismo para a prática cultural.”
Para
Isabel Pires de Lima a dificuldade de que Claudino Ferreira fala existe
por “continuarmos presos a modelos de desenvolvimento que privilegiam
sobretudo aquilo que é imediatamente rentável e aquilo que decorre do
mundo do que é contabilizável”. “É a invisibilidade da Cultura que faz
com que seja tão difícil aos políticos, empresários e sociedade civil
investirem na área”, diz a catedrática, sem acreditar numa mudança no
futuro. O mesmo acontece, aliás, com Gabriela Canavilhas, que antevê uma
descida ainda maior destes valores nos próximos anos. “Vamos sofrer nas
estatísticas as consequências das políticas que têm estado em curso”,
afirma a deputada do PS.
Barreto Xavier não se atreve a antecipar o
futuro mas admite que há um problema de perspectiva e modelo. “É uma
questão de mudança de mentalidades e a mudança de mentalidades demora
eventualmente uma geração”, diz o secretário de Estado ao mesmo tempo
que de alguma forma desvaloriza os números deste inquérito por existirem
variáveis que não foram consideradas e pelo modo como algumas perguntas
foram feitas.
No mesmo sentido, Miguel Lobo Antunes,
administrador da Culturgest, em Lisboa, defende que os números deste
Eurobarómetro não são fiáveis nem podem apoiar reflexões sérias por se
afastarem, "por vezes largamente", de resultados de outras estatísticas
feitas em Portugal sobre o mesmo tema. Mas revela que tem sentido na
Culturgest uma redução de público. “Para que os portugueses sejam mais
cultos, é claro que a educação, os meios de comunicação, as políticas
culturais, têm uma importância fundamental mas também é importantíssimo o
papel desempenhado pelos teatros, pelos centros culturais, pelos
programadores, pelos artistas, pelos pais, pelos mais velhos, pelas
pessoas, que podem contagiar outras”, diz Lobo Antunes.
Catarina
Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, vê com a
preocupação generalizada estes números mas destaca que eles não são
desagregados por cidades e/ou regiões, onde acredita que poderão existir
diferenças importantes. “Nomeadamente em virtude das características
sociodemográficas da população ou do investimento que algumas cidades
têm feito, como por exemplo Lisboa, para manter o nível da oferta e
participação cultural, da promoção da leitura e da valorização das
bibliotecas municipais”, atesta a responsável.
Guilherme
d’Oliveira Martins volta a destacar: “Ainda há muito trabalho a fazer”.
“Temos de tirar lições da crise porque esta crise diz-nos que se não
apostarmos na Educação, na Cultura e na Ciência, teremos naturalmente
grandes dificuldades.”
No que ao secretário de Estado da Cultura
diz respeito, fica o compromisso de “trabalhar mais e melhor na defesa
de um modelo de desenvolvimento que tenha a Cultura no seu centro”."